Recorrida...

domingo, 29 de julho de 2012

O Tempo...

O Tempo...

...Vai cruzando, as vezes ligeiro, principalmente quando estamos felizes, as vezes demora quando queremos que passe logo...

Somos fruto do nosso tempo, difícil é entende-lo, é conseguir ser modificador dele, fazer parte dele e a compreeder de que tudo "pode" acontecer ao seu tempo.
Porém o poder acontecer é justamente a capacidade de conseguir modifica-lo e entende-lo.

A busca pela compr
eensão de quem somos é algo que iremos envelhecer, morrer e ainda estaremos nos conhecendo.
Sangue não é água, nascer de quem veio para este mundo com a capacidade de ensinar, e ao mesmo tempo deixar que se forme sua personalidade e seu pensamento sobre as coisas da vida, do nosso Tempo, é quase que uma dádiva, que deve ser conduzida com respeito, dignidade e principalmente orgulho de ser que somos, daonde somos e lógico temos a obrigação de sermos modificadores (para o bem) do nosso Tempo.

Meu Tempo tem me feito feliz, as coisas estão acontecendo ao seu Tempo, meu Tempo me deixa saudades que sempre serão felizes saudades...
Acho que tenho conseguido buscar fazer parte do meu Tempo, agindo, e não vendo ele passar!!!


Bruno

"Ao morrer um homem de 80 anos é como se tivesse morrido com ele uma biblioteca"

Atahaualpa Yupanqui

segunda-feira, 26 de março de 2012

Carta aberta pra Linda dos olhos Verdes...

Era um sábado, a oito anos atrás, neste mesmo horário só o que Eu tinha era dez pila e um ingresso para o baile com o César Oliveira e Rogério Melo que ia ser no Gaspar, mas mesmo com a guaiaca lisa tava loco pra ir, então me fui num amigo, o Rafinha e pedi 20 pila emprestado, na mesma hora ele deu de mão na carteira e me emprestou.

Me pilchei bem gaúcho como de costume e me larguei a pezito no más, dava umas treze quadras da casa que Eu morava, fiz um copo de samba, e fui...


Cheguei ao Baile, encontrei os amigos, o Pantera, o Carancho, o Arremangado e mais outros que não me lembro, tudo perto da copa, ali a pouco enxerguei os Graxaim num canto, cumprimentei toda a gurizada e peguei uma gelada, como de costume indaguei pra os que ali já estavam sobre as de saia.


Dei uma volta no salão e me topei, os olhos verdes, a mesma morena do cabelo cacheado que em outra feita me deixou sozinho guitarreando pra lua depois de cair da cadeira pela hipnose daqueles olhos. Ela já tinha me disparado uma vez, mas hoje me palpitou que a noite era minha...

“A lua em seu lugar,
Brilhou mais forte e teu cabelo iluminou.
Na noite que era de bailar,
Que parou mansa quando teu rosto me cruzou!”


Mirei e me fui, saquei da boina e lhe estendi o braço, ela puxou a amiga dizendo que ia ao banheiro, e Eu pressentido disse que tava esperando, me estaqueei como um capincho na barranca dum rio e fiquei no aguardo...

“E Eu no meu “gauderiar”,
Não entendia este destino para mim.
Quando te tirei pra dançar,
Me disse não, com os olhos dizendo sim!!”


Fazem oito anos, que quando ela saiu do banheiro eu braceei ela pelo meio sem deixar me dizer que não. __Vamo dança agora Sim!


E largamo, a oito anos atrás, ao embalo dum chamarrão, demos volta e meia no salão, e o que para uns é tragédia pra mim foi o prenuncio da vitória, quebrou o salto do sapato preto que Ela usava.


Bah, foi que dali em diante não teve mais de baile, não olhava mais para os lados, nos estabelecemos perto da entrada e ali tirei horas no pé do ouvido, tentando convencer que a queria, uma sede descomunal, os amigos perto da copa não vinham para o nosso lado, bailavam e voltavam para a bebida, e Eu ali, loco de sede, mas não podia abrir o cavalo, que se facilitasse perdia a prenda que ali estava... fazem oito anos.


Por mais que ela fugisse, virando o rosto pra o lado, foi e foi, devagarinho, e quando ela me permitiu sentir o aroma do seu pescoço, dali pra frente, não tinha mais volta era minha aquela morena...


E a oito anos atrás, ao som dos Loco lá da fronteira, o primeiro beijo, o prenuncio do fim de uma solidão que Eu nem sabia que me judiava...


Foi chegando o fim do baile e me olhando bem no fundo do olho, ela me disse, se queres mesmo, aparece na minha casa amanhã para o mate...

“E um convite pra matear,
Num domingo primereando este Amor.
E Eu a Te enxergar
Tive a certeza que o “Tempo Só”, já se acabou.”

Eu fui lá no outro dia, ela não acreditava, quando entrei procurei os lábios que na noite passada tinham sido meus, mas ela não deixou. Que raio de mulher é essa? Só mais curioso me deixava, e isto a oito anos atrás, tive que me sentar e somente conversar, outro beijo que tanto queria só o provei pela bomba de mate. 

Quando caiu a noite, fui me despedindo e antes de sair pela porta foi ela que me beijou, e daí, já se vão oito anos que ganho este mesmo beijo.

“E hoje ao recordar,
Me lembro o baile que Eu fui por solidão!
E lá fui encontrar...
...a Flor mais linda que brotou neste rincão!!!”

Te quero pra sempre pra mim, Te Amo muito minha Linda, minha Fran, minha... ...“Morena dos Olhos Verdes”!!!

“E esta Zamba...
...é a confissão, do meu peito que sorriu quando te vi!
E estes versos que Te trago,
Lembro o beijo que Te dei
E o medo que na hora Eu senti!
Pois a linda que Eu beijei,
Virou Mulher do meu “Amar”
E agora canto nesta Zamba só pra TI!!!!”


Te Amo e que venha os próximos 8 e mais 8 mais 8 e mais 8 e mais 8 e mais 8...
Bagé, 26 de março de 2012, lua Nova.


PS: Até hoje devo aqueles 20 pila pra o Rafinha, rsrsrsrs

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Salve Dom Caetano...

Realmente impressionante este tema que trago pra os amigos!!!

A veracidade e beleza do verso do Jayme são nada mais nem menos que fantásticos, um poeta autêntico, terrunho, porém com um linguajar polido, correto, inteligente e bagual, ou seja, NOSSO.
Um representante da nossa fala, das nossas angústias e necessidades, retratando nada além da nossa terra, da NOSSA GENTE.

Não sei quando foram escritos estes versos, porém parece que foi ontem...

PAYADA DO NEGRO LÚCIO
Jayme Caetano Braum






Vou tenteando na cambona
Já bem abaixo do meio,
Lá pras bandas do rodeio
Ouço um berro de mamona;
Aqui guitarra e cordeona,
Chimarrão - fogo de anjico;
O sol já com braço e pico
Neste final de janeiro
Que vai indo mais ligeiro
Do que soldo de milico!

Mateando - meio solito
Porque o patrão e a peonada
Já saíram pra invernada,
Há muito tempo - cedito,
O sábado está bonito
E a indiada aqui da fazenda
De tarde - se vai a venda
E aos bolichos do caminho,
Ou então - beber carinho
Nos braços de alguma prenda!

Mas enquanto eu chimarreio
Neste morrer de janeiro,
Meu pensamento chasqueiro
Se aviva - mascando o freio
E sai - a pedir rodeio
Nas lembranças - retoçando;
Eu me paro - recordando
As falas do negro lúcio,
Muito maior que confúcio
Pra filosofar trançando!

E ele sempre me dizia,
Enquanto tirava um tento,
Naquele linguajar lento
Cheio de sabedoria:
- a noite é a ilhapa do dia
Na argola da escuridão,
É quem garante o tirão
Em todas as lidas sérias,
Neste varal de misérias
Que é a existência do cristão!

Deus não fez rico nem pobre,
Peão - patrão ou capataz,
Isso é o destino quem faz
E - como é - não se descobre,
O nobre que nasce nobre
Nem sempre assim continua;
Pra beleza da xirua
Ou cavalo de carreira
Não adianta benzedeira,
Nem reza ou quarto de lua!

Enquanto filosofava
Naquele estilo sereno
O semblante do moreno
Parece - se iluminava,
A vivência é que falava
Naquela conversa mansa
E - no fundo da lembrança,
Inda o escuto reafirmar:
- parar não é descansar
Porque estar parado - cansa!

Dele mil vezes ouvi
O que tem que ser - será,
Por longe que o homem vá
Jamais fugirá de si
E com ele eu aprendi
As cousas da natureza,
A fidalguia - a franqueza
E aquela velha sentença:
- atrás da cinza mais densa
Existe uma brasa acesa!

E chego a ouvi-lo fazer
Junto dum fogo de chão,
Uma grande distinção
Entre existir e viver;
Filho, dizia - morrer
Não é mais do que uma viagem,
Por isso não é vantagem
O forte fazer alarde
Que - às vezes - pra ser covarde,
Precisa muita coragem!

Inda vejo o conselheiro
Que evoco com devoção
Naquele estilo pagão
De confúcio galponeiro
Que me dizia: parceiro
Nesta existência brasina,
Cada qual traz uma sina
Que força alguma desvia
E nada tem mais valia
Que as coisas que a vida ensina!

Filho - a verdade - verdade
Que nenhum sistema esconde
É que o povo não tem onde
Suprir a necessidade
E vive pela metade
Abaixo de tempo feio,
Vai explodir - já lo creio,
A tampa dessa panela,
Nem adianta acender vela
Pro negro do pastoreio!

Como encontrar os perdidos
Num país deste tamanho,
Se venderam o rebanho
E os homens foram vendidos,
Se os chamados entendidos
Falam de cara risonha
Defronte a crise medonha
De estelionatos e orgias,
Quem mente todos os dias
Vai ficando sem vergonha!

Aqui o rio grande isolado
Pela mão pátria madrasta,
Dia a dia - mais se afasta
Do poder centralizado,
Mesmo que guaxo pesteado
Botado de quarentena,
Quanto ao capataz - que pena,
Não serve para o rio grande
Na hora de ficar grande
Se abatata e se apequena!

Na hora de dizer: pára!
Àqueles que nos ofendem,
Desrespeitam - desatendem
Ao rio grande tapejara,
Não sei porque - esconde a cara,
Quando a ocasião é mostrá-la,
Calçar o pé - erguer a fala
Porque esta terra pampeana
Não é a "casa da mãe joana"
E nem tão pouco senzala!

Não é ofensa - capataz,
É que os homens desta terra,
Adquiriram na guerra
Direito de estar em paz,
Dentro dum clima capaz
De viver em harmonia,
Sem toda essa vilania
De boicotes e de ameaça
Que estão fazendo - de graça
À velha capitania!

A própria carne importada
Lá de fora - é um desaforo,
E o calçado - há tanto couro
E gado nesta invernada
E arroz da safra passada,
Pra que essa compra mesquinha,
Querem nos dobrá a espinha
E nos cortar a garganta,
Mas rio grande - não se espanta
Como se faz com galinha!

Que lindo se - o presidente
Em vez de passear na europa,
Passasse em revista a tropa
Deste país continente
E num gesto inteligente
Viesse ao rio grande fronteiro
Que já era brasileiro
Antes mesmo de vespúcio
E levasse o negro lúcio
Pra servir de conselheiro!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Aqui...

O progresso e o tempo novo
mataram os rebanhos,
as comparsas de esquila a martelo...
O brete - o rodeio e as marcações proteira a fora...
O rádio emudeceu as vitrolas
e o caminhão matou o tropeiro


E o homem?
E a mulher?




Ah! Estes ainda não...
Os homens e mulheres deste pago
estão como cernes de guajuvira,
eretos e firmes, como sempre.


Nas suas almas está guardada
a melhor fibra da raça crioula,
mantendo, como patrimônio maior,
a honra, a dignidade, o apego ao chão,
ao trabalho duro e honesto.


A gente do meu rincão
sabe arrancar deste solo
o seu sustento suado.





Crescemos tranqueando atrás do arado
e conversando com os bois;
por isso o braço forte, as mãos,
 a alma e o coração calejados pelo trabalho pacífico;
conduta que adquirimos pelos ensinamentos
dos nossos anteriores,
que balizaram rumos para nós;
montaram a cavalo para defender
e tornar brasileiro o chão onde pisamos
e que guarda suas cinzas.


Aqui, as nostalgias da campanha
encontram amparo nas cruzes sozinhas
quando debruçam as sombras, de braços abertos,
sobre a teimosia dos pajonais...
e por essas imagens é que as saudades
ganham a estaturas de cerros.


Aqui, repartimos a dor em silêncio,
porque a alma, quando está ferida,
substitui as palavras pelo idioma do coração.


Aqui, a sombra dos cinamomos
é muito mais que uma sombra...
É o lugar onde comungam os mansos e xucros,
remoendo, tranquilos, nos sóis de verões,
a seiva natural dos campos e onde as espécies se igualam,
celebrando a vida ao redor das casas.






Apenas aqui o andante descobre
o valor de um "Ô de casa",
quando, sovado de corredores,
bate palmas de esperança
na frente de um parapeito,
e as portas se abrem para ouvir
os seus relatos colhidos nas estradas.


Aqui, a cordeona tem voz de recuerdo,
a guitarra tem alma de pátria e querência.
Os galos acordam as madrugadas
e o cheiro dos campos vem dormir dentro de casa.






Aqui, se conhece a volta certa
dos cambões das porteiras
e se entende de laços, arames e tranças,
de potros e domas, conjuntas e jugos,
arados e enxadas, mariposas e galeotas,
machados e tiradeiras...






Aqui, as mangueiras encerram
os tombos dos pealos e os comandos de "Forma Caalo";
os berros das vacas mansas
timbram a alma do pago,
com refrões enluarados de madrugada.






Apenas aqui ainda se ouve,
nas tardes quentes de chuva,
o tuco-tuco, justificando seu nome,
e as calhandras ainda encontram
varais com charque para temperar o assovio.


Nas noites quentes ainda se escuta
a saparia afiando o canto
nas chairas dos juncais.
As esporas ainda riscam o chão dos galpões,
e as botas têm o couro marcado pelo suor dos cavalos...






As chaminés dos fogões a lenha
ainda fumegam pelas madrugadas
e ainda se pode ouvir as cantigas das sangas claras,
os berros de touro e a cantoria dos grilos.
As babas-de-boi tremulam nos caraguatás,
hasteando, em mastros de espinhos, os rumos dos ventos.






Aqui, ainda se pode ver bombachas remendadas
e camisas feitas de saco, estendidas
num quarador próximo a tabua de bater roupas,
nos empedrados das sangas.


As mulheres ainda usam sombrinhas,
lenços na cabeça, para a lida,
e ainda bordam panôs, aventais, guardanapos...
E ainda fazem pão com torresmo.


Aqui, a sabedoria secular ensinou que,
fazendo uma cruz com carvão sobre os ovos de galinha,
para chocar, os trovões não conseguem gorar;
e a natureza se encarrega de "descascar"
as ninhadas e espalhar infâncias de veludo
nos terreiros bem varridos.


Aqui, ainda se usa o macete
e a mordaça para sovar um couro...
e se toma café com bolo frito
nas tardes chuvosas de inverno.






A cicatriz dos rodados,
que nascia das cacimbas,
hoje serve de caminho
para a sobra dos aguaceiros
engordam as enchentes.
Às vezes, o céu pinga pelas goteiras
dos nossos tetos, apaga luas e estrelas,
mas acende, em cada um, a sabedoria e a esperança.






Aqui, a felicidade não tem anéis nos dedos e nem diplomas
nas paredes, mas se tem olhos na alma capazes de
interpretar as parábolas da natureza - porque sabemos
que os cantos matinais dos sabiás e bem-te-vis são, na verdade,
UM DIÁLOGO COM DEUS.


Letra de Eron Vaz Mattos
Extraída do livro e cd "Canto Ancestral" de Lisandro Amaral.
Desenhos de Átila Sá Siqueira

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Manifesto Criolo!!!!!!

MANIFESTO CRIOLO

Cantando estas verdades
Que brotam da minha garganta
Até mesmo se espanta
Estes que têm a culpa
Sua incoerência sepulta
Ao negar o chão fronteiro
Entregando por dinheiro
A cultura que Eu me Agarro
Estão como o João de Barro
Chocando o Ovo Alheio!

Então Eu me manifesto
Na minha xucra linguagem
Deste jeito sobra coragem
Pra defender minha cultura
É com raça e com bravura
Legado herdado por mim
E o meu cantar sai assim:
Num versejar protestante
Aos que pisam o semelhante
Fazendo de trampolim!!!!

Não me sujeito às amarras
Desta gente infiel
Continuo o meu papel
Sempre firme na batalha
Meu verso nunca falha
Pois sustento a identidade
Ao cantar com propriedade
Hablando com sentimento
E mostrando meu lamento
Com as mazelas da sociedade

Pois cantando o meu chão
Legado dos ancestrais
Aos quatro pontos cardeais
Eu defendo o meu recanto
Pela pampa me levanto
Em uma luta incessante
Realidade constante
Que vai brotando rebeldia
Por ver tanta anarquia
Partindo dos governantes!

Tem tanta coisa passando
De qualquer jeito no más
Já me sinto quase incapaz
De dar um basta imponente
Pois com órgãos coniventes
Com a pobreza cultural
Município, estado ou federal
Numa gandaia de governo
Admitindo o atropelo
Da cultura regional

Se a mim chamam de bairrista
Por sustentar o que penso
Fica aqui meu consenso
De hereditária cultura
Se a minha simples figura
Lutando pela tradição
Abraçado ao violão
Num xucro e nobre ritual
Sou Latino e Universal
Por ser cantador do meu chão


Bruno Teixeira
Verão / 2010
Lua crescente

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Mais uma obra da nossa literatura criola!!!!!!

POEMA CIRCULAR
(Apparício Silva Rillo)


Não,
não me procurem mais
no meu velho endereço lá no campo.
Eu estou me mudando,
eu estou de mudança
estou mudado.

Compreendam:
no meu velho endereço lá no campo
só me havia ficado o coração
-já menos moço para os frios de agosto,
-para os ventos parados do verão.
O resto:
braços, pernas,
mãos, tronco e cabeça -
há muito tempo pagava fretes
num caminhão de carga que os trazia
pela fita do asfalto,
de um a um.

Claro,
vim aos pedaços,
como resistindo.
E quanto resisti!

Partido,
repartido,
a metade de lá chamava a outra
que tinha se mudado para aqui.

Eu ia.
e no meu velho endereço lá no campo
estava a bombacha vazia
no espaldar da cadeira.
E como é triste a bombacha vazia de seu dono!
O chapéu sem cabeça, nos cabides,
um lenço colorado sem pescoço,
as botas paralíticas
junto ao penico de louças, sob a cama,
-o meu jeito de andar perdido delas.

Não,
não me procurem mais
no meu velho endereço lá no campo.
Eu estou me mandando,
eu estou de mudança,
estou mudado.

Trouxe nas malas anos de recuerdos:
as esporas do avô, um mango retovado,
uma franja de pala, um barbicacho,
um estribo sem loro, uma cambona,
uma panela com terra,
um boizinho de argila, que não berra
e um cavalo de ventos para andar.

Tudo isso nas malas!
Elas que são o avesso da gente,
porque são íntimas de nós,
e nos carregam.

Não,
não mandem mais
a meu velho endereço lá no campo:
livros de versos, discos e romances,
revistas e jornais.
Nem aviso de amigos que morreram,
nem notícias de netos que chegaram
como o menino Jesus, pelos Natais.

Tudo isso:
-vinho de alma, pão para a matéria -
tem un novo endereço de remessa:
uma casa de brisa e tijolos
numa cidade que eu amei depressa
pelas raízes campeiras, que ainda encontro
nas ruas de seus bairros e travessas.

Ah, quanto cantei
-de alma limpa e boa boca,
em salmos e protestos e orações -
o meu terrunho onde deixei plantado
o que tive de melhor no coração!

Um dia, os que virão
hão de saber que estanciei por lá,
nessa casa amparada por retratos
que vigilam na sombra como guardas
de uma herança que eu não sei quem herdará!

Na casa,
fiéis como esses gatos que não mudam
embora se mude o dono e vá-se embora,
estarão os meus livros e a vitrola
para falarem por mim - pelos meus versos,
para cantarem por mim - pelas cantigas...

E assim me hão de encontrar os que saudarem
nos portais do terrunho, ó "Ó de casa!"
Que no meu tempo escancarava portas
e abria corações para os andantes.

Não,
não me procurem mais
no meu velho endereço lá no campo.
Eu estou mudado,
eu estou de mudança,
já mudei!

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Estradeiro

LUIZ MARENCO...

... O CANTOR!!!!

Tenho um marco musical em minha vida que foi a 5° Estância da Canção Gaúcha de São Gabriel.
Lá que eu vi o Marenco pela primeira vez, foi quando ele defendeu a música: "Funeral de Coxilha" que primeriou o festival, com letra do Sérgio Carvalho Pereira e melodia dele.
Aquilo me marcou tão profundamente, eu era muito guri, mas tinha algo no seu cantar, tinha VERDADE.
Na mesma edição também teve "Cansando Cavalo" dele com letra do Gujo Teixeira, outra baita obra, que ficou em terceiro.
Ano: 1997.


Considero o Noel Guarany o maior ícone da nossa música, por todo seu trabalho de precurssor, pelo seu talento, suas opiniões, enfim por ser o Noel.


Da mesma forma que como o Noel, Luiz Marenco pode ser considerado um divisor de águas na música gaúcha, ele é um grande responsável pela integração da juventude no meio gaúcho, existe muitas pessoas que vieram a conhecer a musicalidade de tantos outros buenos artistas da nossa música em função de escutarem o Marenco.

As vezes me topo em conversas com alguns conhecidos de idade paralela a minha, que quando falamos de como começamos a ouvir música gaúcha boa, falam que já conheciam, o fulano, beltrano...será?
Parece que as vezes querem se mostrar mais conhecedores ou mais gaúchões, ou até com vergonha de admitir que foi com o Marenco!!!


Já ouvia múscia gaúcha, obviamente, sempre foi o que tocou na minha casa, na casa dos meus avós, porém Marenco me fez prestar atenção, me fez parar para ouvi-lo!!!



Adimito com muita felicidade que o Marenco me abriu estas portas da música gaúcha boa, ele me apresentou o universo do Noel, do Jaime, dai fui encontrar o Cenair, com ele escutei o Pepe Guerra pela primeira vez, e dai me veio Zitarrosa, Chalar e Osíris, fui atrás e descobri Yupanqui, Cafrune e Larralde.

Sou fã deste cantador dos caminhos!!!


Um misto de TALENTO, RESPONSABILIDADE e VERDADE!!!!!!!!!!!!

LUIZ MARENCO É UM DOS GRANDES!!!!!!


Trago a documentário Estradeiro que mostra um poquito deste grande Canário






sábado, 3 de setembro de 2011

Noite Escura

"O breu grande da noite
Avança pela madrugada
Silhuetas disfarçadas
Espreitam pelas vielas
Dispersando suas mazelas
Numa vida desperdiçada
Por decisões mal tomadas
Ignorando a própria sorte
E a manhã vai chegando ao trote
Onde os habitantes noturnos
Traçam um destino Lobuno
Por irem brincando com a morte... "


SURPRESO & SATISFEITO!!!

Estas duas palavras sintetizam o que senti ao ler o Livro do Tio Tavyis (Rodrigo Tavares).
Noite Escura nos faz voltar no tempo das leituras estilo "pulp fiction", é intrigante, tem suspense, não é um livro cansativo, resumindo: é muito bom de ler.

A história se passa em uma cidade fictícia da fronteira do nosso Estado, porém retrata fidedignamente os dias de hoje, sem excessos, simplesmente abordando o cotidiano dessa nossa gente do interior.

O resto os amigos podem conferir lendo... rsrsrs

Recomendo por demais esta obra do meu amigo Tavares!!

Parabéns Tio Tavyis!!!!!!

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Sem falsa Demagogia

Sem falsa Demagogia

Atirando o poncho ao ombro
E agora buscando a volta
Assobiando chamo a escolta
Da guitarra companheira
Pra falar da Bandalheira
Que o contribuinte sustenta
O cidadão se lamenta
Porém num simples sussurro
Estivemos no mandato do BURRO
E agora no da JUMENTA

No pais das CPIs
É dificil a sobrevivência
A Deus eu peço paciência
Pra não estourar a tropa
Pois a cada dia brota
Mais galhos de resistência
Que tem amor a querência
E inteligencia de sobra
Pra destruir esta obra
De aumentar a pobreza
A fome e a fraqueza
Como massa de manobra!

Pra não perde o fio da meada
Vou fazer o meu protesto
É ano eleitoral vão consumir com resto
E tudo que que vem do campo
Nem que reze a todo santo
Cada vez ta mais barato
Pois são igual carrapato
Uma corja de parasitas
E pra bancar suas visitas
O produtor paga o pato!!!!

É um punhado de projetos
Com interesse eleitoreiro
Então eu grito primeiro
O que nos falta é estudo
E o Burro fica mudo
E se enreda nos arreios
E Jumenta num tempo feio
Sem peso na consciência
Tão fazendo continencia
Usando o chapéu alheio!!!!!!!!!!!

E me da uma revolta
Ao ver o povo calado
Escutando que um deputado
Usa o dinheiro da gente
Pra contratar seus parentes
Enquanto um senador
Debocha do meu suor
Que com honra e galhardia
A minha gente bravia
Com sol, com chuva e vento
Trabalha por seu sustento
E pra pagar o BOLSA FAMÍLIA

E do jeito que ensinaram
A tomar o caminho certo
Vejo um destino incerto
Mediante a corrupção
Pois um bando de ladrão
Disfarçados de gravata
A nossa gente maltrata
Por uma ganância tamanha
Onde um deles se assanha
Meio levado da breca
Esconder dólares na cueca
Dinheiro que o povo ganha

São larápios os que vos falo
Com seu colarinho branco
E o povo segue ao tranco
Sendo cruzado por cima
Mas o meu cantar afirma
Com toda exatidão
Que esta escória de ladrão
De socialista disfarçado
São como boi confinado
Engordando a mensalão

Bruno Teixeira e Jorge Teixeira

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Cosas que Pasan

Pra mim o Larralde é um dos Grandes


Grandes estes, no que refiro a manifestação cultural que tem por objetivo falar e mostrar as coisas da nossa gente, o cotidiano do homem rural.


Porém não somente sendo um paisagista que desenha uma cena com seu canto, ou então um narrador contando sobre algum fato acontecido como uma tropeada ou uma doma.
Jose Larralde viaja pelos âmbitos sociais e comportamentais do homem rural, mostra suas angustias, seus pesares, suas vontades.


Mostra que o homem do campo não é nenhum alienado, perdido no seu ranchinho de barro e galopeando potros simplesmente.
Mostra que este mesmo homem que vive de seu serviço e consequentemente de sua destreza campeira, vai muito além disso pois se preocupa, reflete e tem opinião formada sobre as coisas que acontecem pelo seu mundo.
O nosso homem rural é politizado, óbvio que dentro das limitações de cada um, porém sabe muito sobre o seu tempo.


Para muitos seu canto é muito triste, ainda acho que mesmo triste em determinados momentos, é um canto realista e verdadeiro. 


Um cantor que sempre cantou opinando...


Bueno então deixo este tema recitado por ele. A letra completa vai abaixo do vídeo.


Espero que gostem, abrasss...







Cosas Que Pasan
Don Víctor Abel Jiménez




Nadie salió a despedirme 
cuando me fui de la estancia 
solamente el ovejero, un perro nomás, 
Cosas que pasan. 
El asunto, una zoncera, 
un simple cambio de palabras, 
y el olvido de un mocoso, 
del que puedo ser su tata. 
Y yo que no aguanto pulgas, 
a pesar de mi ignorancia, 
ya no mas pedí las cuentas, 
sin importarme de nada.


No hubiera pasado esto, 
si el padre no se marchara, 
pero los patrones mueren, 
y después los hijos mandan. 
Y hasta parece mentira, 
pero es cosa señalada, 
que de una sangre pareja, 
salga la cría cambiada.


Los treinta años al servicio, 
pal' mozo no fueron nada, 
se olvido mil cosas buenas, 
por una que salió mala. 
Yo me había aquerenciao, 
nunca conocí otra casa, 
que apegado a las costumbres, 
me hallaba en aquella estancia.
Sí hasta parece mentira, 
mocoso sin sombra e' barba 
que de guricito andaba, 
prendido de mis bombachas. 


Por él, le quité a unos teros 
dos pichoncitos, malaya! 
Y otra vez, nunca había bajao un nido, 
y por él gatié las ramas.
Cuando ya se hizo muchacho, 
yo le amansé el malacara, 
y se lo entregué de riendas, 
pa' que él solo lo enfrenara. 
Tenía un lazo trenzao, 
que gané en una domada, 
pal' santo se lo osequié, 
ya que siempre lo admiraba.


Y la única vez que El patrón, 
me pegó una levantada, 
fue por cargarme las culpas, 
que a él le hubieran sido caras. 
Zonceras, cosas del campo, 
la tranquera mal cerrada, 
y el terneraje e' plantel, 
que se sale de las casas. 
Y eso, pal' finao patrón, 
Era cosa delicada.
Y bueno, pa' que acordarme 
de una época pasada, 
me dije pa' mis adentros, 
todo eso no vale nada.


Sin mirarnos, arreglamos, 
metí en el cinto la plata, 
le estiré pa' despedirme mi mano, 
Pa' que apretara, 
y me la dejó tendida, 
cosa que yo no esperaba. 
Porque ese mozo no sabe, 
si un día ha de hacerle falta...
Tranqueando me fui hasta el catre, 
alcé un atado que dejara, 
y me rumbié pal' palenque, 
echándome atrás el ala.

Ensillé, gané el camino, 
pegué la ultima mirada 
al monte, al galpón, los bretes, 
el molino, las aguadas,
De arriba abrí la tranquera, 
eche el pañuelo a la espalda, 
por costumbre, prendí un negro, 
talonié mi moro Pampa, 
y ya me largué al galope, 
chiflando como si nada.


Nadie salió a despedirme 
Cuando me fui de la estancia, 
Solamente el ovejero, un perro nomás, 
Cosas que pasan.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

CHAMAMECERO

Bueno!!!

Ligeirito trago este vídeo pra os amigos, depois de um fim de semana maravilhoso e pelo horário já na segunda-feira dia de São Pega!!!

Coisa vista que MÚSICA existe dois tipos:
BOA & RUIM

O resto é bobagem inventada pra vender livro!!!!!!!!
Um bom início de semana a todos!!! 

Chamamero
Letra e música: Mauro Moraes
Violão: Lucio Yanel
Voz: Bebeto Alves
Contrabaixo: Clóvis "Boca" Freire
 

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Mano Lima, um Filósofo Campeiro!!!

Che meus amigos, é impressionante como as notícias correm ligeiro pela internet, e principalmente pra gente que participa do Twitter, tudo que acontecendo com um amigo, ou com outro, fica rolando por ali, e a gente acaba estando sempre em contato e fica atualizado né...


Bueno, hoje pelo Twitter tive mais uma grande surpresa e claro de bueníssimo bom gosto, atitude e competência. Tava chegando nas casa e enquanto esperava a Fran fechar a clínica liguei o pc pra dar uma conferida nos assunto e bem na hora o amigo @fcoveiga (Francisco Veiga) tava postando lá nos twetssss, estes vídeos que trago pra vocês agora.

Brilhante idéia tiverem este buenos gaúchos da TV RONDA GAÚCHA !!!

Este homem é um esteio da nossa cultura, do nosso folclore!!!!

Absorvam a essência de uma homem preocupado com o que é nosso, que somente fala coisas com conteúdo e com fundamento, e principalmente um homem de BEM. 

MANO LIMA...




  

Um abraço bem cinchado!!! 

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Un Peon, Segundo Molina

Já deve ter dado pra perceber que me agrado por demais da poesia criola, a nossa literatura gaúcha e por supuesto gaucha, é de uma magnitude impressionante.
Ao decorrer dos tempos vemos autores, poetas que conseguem transmitir tamanhos sentimentos com as palavras falando em nosso puro linguajar.
As coisas mais simples pra nós se tornam tão caras...


Então pra apreciação dos amigos que por aqui cruzam, deixo mais um tema pra que seja apreciado.




Un Peon, Segundo Molina

V. A. Gimenez - A. Merlo

Llegó a la estancia de paso
pa'l tiempo de las esquilas
y alargó su permanencia
por causa de que llovía,

En la esquina de un galpón
l' hizo tabique una estiba,
tendió el catre y de un alambre
colgó sus escasas pilchas,
y al no encerrar la majada
y andar de gusto esos días
pa' no pasarla aburrido
ayudó... en lo que podía,
que juntar marlos pa' l fuego,
arreglar unas bebidas,
cortar lonjas, sacar tientos,
desgranar pa' las gallinas...

Y cuando compuso el tiempo
y terminó con la esquila
se quebró un peón,
pa' reemplazarlo unos días,

Despúes en la mesma estancia
otras changas que salían...
del galpón, pasó a las piezas
que pa' los peones había.

Y como el tiempo se escapa
y se amontonan los días
ya van como veinte años
que aquel Segundo Molina
es un hombre para un patrón
ya no es más peón golondrina.

Pero, el asunto ha cambiao
en estos últimos días
ya que a llegaó a la estancia
un juez, con un polecía
pa' anoticiarlo al patrón
de un parte que le traían:
que en su campo trabajaba
un tal... Segundo Molina
pa' la patria... desertor
cuando llamó la Marina,

Al enterarse el patrón
V. yendose... todavía -
V. pensando una confusión
dentró a escuchar que decían,
y la verdad era cierto,
aunque ni el peón lo sabía...

¡ había pasao mucho tiempo
del sorteo y la milicia !.
Pero el juez insistió
completando su teoría:
¡ Por no servir a la patria
es un desertor... Molina !.

Esas palabras cayeron

pa' l patrón, como agua fría
y levantando la voz
dentró a sangrar por la herida...

¿ Como... que no ha servido a la patria
mi pión... Segundo Molina... ?
¡ Podrá o no ser desertor
d' eso no ando con porfías...
pero que sirvió a la patria
doy fé y me juego la vida...
Porque hace más de veinte años
sin aflojarle ni un día
con en el arao, de a caballo,
sin conocer la fatiga,
lidiando con toros bravos,
haciendo crecer la estiba,
recorriendo los potreros
pa' l tiempo de las paridas...
¿ O solo sirve a la patria
aquel que va a la milicia... ?


Vaya nomás que enseguida

me cambio y salgo pa' l pueblo
a ver la papelería y buscar un abogao´
que lo defienda a Molina...

El peón, que estaba escuchando

sin decir, la boca es mía
salió al tranquito y pensando
en las cosas de la vida,
el que siempre iba alegando
que a llorar no aprendería...
con la cabeza agachada se metió pa' la cocina...

Y le mojaron sus ojos el puño de la camisa...
Mientras seguía escuchando
lo que' l patrón... repetía:
¡ Con qué... no ha servido a la patria
mi peón... Segundo Molina ! ...